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| os complexos de famílias ficam dentro dessas grades |
Era uma terça-feira, 22 de novembro,
eu estava de plantão no complexo de família nº 02, nesse complexo só moram as
famílias afegãs. Meu serviço àquela noite era supervisionar quem entrava e saía
do complexo, era a responsável em abrir e fechar o portão, minha
responsabilidade era garantir que cada família, criança, mulher, idoso
estivessem seguros dentro daquele espaço. Era minha primeira vez trabalhando no
complexo 02, geralmente eu ia lá para conversar com algumas mulheres afegãs,
mas naquela terça-feira decidi trabalhar naquele lugar. É a partir de agora,
que compartilho com vocês a história de uma amiga, uma menina meiga, doce,
delicada, mas de uma força indescritível.
Eu estava sozinha no portão, algumas
crianças apareciam e brincavam comigo, já estava na hora do jantar, a
alimentação já foi distribuída dentro do complexo pelos outros voluntários, eu
estava quieta, observando as pessoas subindo e descendo aquela enorme ladeira,
algumas mulheres em um grupo de amigas falando ao celular, alguns homens rindo,
e alguns solteiros estavam na fila quilométrica para pegar o jantar. E eu? Bom,
estava sentada, apenas abrindo e fechando o portão, até que uma jovenzinha chamada
Karima, decide sentar ao meu lado, ela usava um vestido bem delicado, e seus
cabelos estavam cobertos por um lenço da minha cor favorita, lilás.
Karima: Boa noite, my friend. Você é
brasileira?
Eu: Oi, boa noite. Sim, sou brasileira. Como se chama?
Karima: Me chamo Karima – respondeu-me ela. -
no seu idioma você também pode me chamar de Carina.
Karima passou boa parte da noite ao
meu lado. Ela me contou sobre o que fazia antes de fugir do Afeganistão.
Karima: O seu trabalho é muito importante,
você está fazendo um ótimo trabalho. – Disse ela com toda doçura e gentileza.
No meu país eu também trabalhava cuidando de um portão.
Eu: Que legal Karima. Quantos anos você tem? Perguntei a
ela.
Karima: Eu tenho 16 anos, eu trabalhava em
uma fábrica e depois ia pra escola. Bom, agora estou aqui com a minha família.
Eu: Você está com seus pais e irmãos?
Um silêncio tomou conta nesse momento,
vi as lágrimas se formarem em seus olhos. Não pronunciei uma palavra, não
queria vê-la chorar, pois sabia que algo triste havia acontecido. Ela então
rompeu o silêncio e contou:
Karima: Eu, minhas duas irmãs e minha mãe
fugimos do Afeganistão... Meu pai não está aqui. – Mais uma vez o silêncio
tomou conta, mas de uma forma profunda.
Depois de um tempo, conversando com
uma das voluntárias, descobri que pai de Karima foi morto pelo grupo extremista
do Afeganistão, por questão de segurança, sua mãe juntou tudo que tinha e fugiu
com as filhas. A família estava incompleta, Karima não tem mais o pai, não tem
mais sua casa, o trabalho. Ela tinha apenas o sentimento de saudade!
Me coloquei no lugar de Karima naquele
momento, tenho uma relação de amizade muito forte com meu pai. Eu não tinha
palavras para falar naquele momento, eu via a dor dela, mas a única coisa que
poderia oferecer era um abraço de amiga, um abraço de quem se importa. Ainda
abraçada comigo ela continuou a conversa, contou que sua mãe pagou a um
contrabandista para realizar a travessia. Karima disse que o mar estava
agitado, todos estavam com medo, mas aquela era a única alternativa que pudesse
garantir a sobrevivência delas. Elas entraram em um pequeno bote superlotado, a
travessia durou cerca de 2 horas, até que elas finalmente chegaram em terra
firme. Aos poucos o rumo da conversa foi mudando, Karima estava mais calma, ela
queria aprender algumas palavras em português. A ensinei palavras básicas, para
que toda vez que nos víssemos no campo, pudéssemos nos cumprimentar em
português. E para minha surpresa, ela aprendeu muito rápido cada palavra!
Ela amava mexer no meu cabelo, ela e a
grande maioria das mulheres lá no campo (risos). Karima me disse que seu cabelo
era do mesmo tamanho do meu, então, para minha surpresa, de forma rápida, ela
olhou para os lados e rapidamente retirou o lenço da cabeça, ela queria me
mostrar os seus cabelos de cor castanha, lisos e curtos. Em árabe Karima
significa generosidade,
para mim, aquele foi o ato mais generoso que ela me fizera. Em uma única noite
Karima compartilhou comigo suas lágrimas, confiou em mim para receber um
abraço, teve confiança o suficiente para mostrar o seu cabelo, e no fim da
noite fui presenteada com sua amizade.
Afeganistão:
O Afeganistão fica localizado na Ásia,
a religião predominante no país é o islamismo. A política está baseada na
República Islâmica, onde se configura um modelo de governo teocrático, cujo
representante político do país aplica em sua base política os preceitos
islâmicos. O grupo extremista que atua no Afeganistão é o talibã, é um grupo
que teve origem em meados do ano de 1994, com objetivo em aplicar em todo o
país a lei da sharia (é uma lei
que rege as regras comportamentais para os muçulmanos, seu princípio está
fundamento no Alcorão). Dessa forma, o Talibã rejeita a atuação feminina nas
esferas sociais do país, principalmente nas escolas.
Refugiados Afegãos:
Segundo dados publicados pelo Alto
Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) divulgado em fevereiro de 2016, 71% dos afegãos que se encontra em
ilhas gregas deixaram o país de origem devido aos conflitos e violência, 44%
dos refugiados afegãos possuem diploma universitário ou concluíram o ensino
médio.
Se envolva:
Há várias formas de
ajudar os refugiados, há diversas instituições convocando voluntários para
atender ao chamado dessa crise humanitária. Você pode ir, ajudando
na linha de frente (recebendo os refugiados que chegam nos botes), você pode
trabalhar dentro de campos de assentamento. Você conhecerá o outro lado das
notícias que são divulgadas na mídia, você conhecerá história, você conhecerá
os nomes e rostos dessas pessoas e fará parte do recomeço da história deles.
Você pode apoiar financeiramente algumas pessoas que tem se dedicado a ir de
forma voluntária atender a esse chamado. Apoie os refugiados, seja a voz dos
sem voz.

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