19 de novembro de 2016 era um dia tranquilo, para mim, um dos dias mais lindos desde quando cheguei na
Grécia. No dia 19 eu e minha equipe ficamos no turno da manhã, nosso horário de
trabalho iniciava às 8 horas da manhã com término programado para as 04:30 da
tarde. Esse dia fiquei no setor de doações de roupas, no horário das 9 até as
11 horas percorríamos em dupla pelo campo distribuindo em algumas barracas
sabão em pó, e realizando as solicitações de roupas para aqueles que precisavam.
Retornamos para o container da instituição
por volta das 11:10 para separar as roupas que foram solicitadas, uma das
coisas que mais gostava em ficar no setor de doações era que eu tinha oportunidade
em escolher cada peça de roupa para a pessoa que iria receber. Eu imaginava a
criança, mulher ou homem usando a roupa que eu escolhi com tanto carinho. Era
gratificante quando eu entregava as sacolas com as roupas e perguntava “E
então, gostou da roupa?”, e alguns sempre respondiam com um largo sorriso “gostei,
essa roupa é bem bonita”. Claro, havia algumas situações que muitas pessoas
reclamavam da cor da roupa que nós voluntários havíamos escolhido, ou devido a
peça de roupa que não coube na senhora, ou uma jaqueta que ficou curta para uma
mulher muçulmana usar. E eu entendo perfeitamente, aquelas pessoas viviam
totalmente diferente, elas escolhiam as próprias roupas, e devido às
circunstâncias tudo aquilo que era uma ação simples feita por eles, como
comprar roupa por exemplo, era feito por pessoas estranhas.
Lembro-me que algumas atividades foram
separadas para aquele dia, para que o processo de entrega de doações ocorresse
de forma ágil e organizada. Dessa forma, fiquei no portão, assegurando que
apenas voluntários e tradutores pudessem passar. Durante essas idas e vindas, e
broncas em algumas crianças que tentavam avançar o portão (que por sinal eram
velozes, ou então, eu não tenho mais energia para alcançar as crianças - risos),
aproximou-se ao portão um homem que transbordava em seu semblante uma paz e
calmaria indescritível, ele aproximou-se de mim lentamente enquanto aquecia as
mãos entre a jaqueta que usava.
- My friend – Disse ele, com uma voz
mansa.
- Olá, posso te ajudar? – Perguntei a
ele
- A senhorita poderia me emprestar
uma linha e agulha? Meu sapato rasgou, e só tenho ele para usar.
Naquele momento eu sabia que aquele
homem educado, sorridente e simpático tinha algo de diferente. Como eu não poderia
sair do meu posto de serviço, pedi para que um voluntário buscasse o material
solicitado, e foi durante esse curto tempo de espera que conheci uma das
histórias que causou grande impacto na minha vida. Fiquei temerosa em iniciar
uma conversa e ele achar que eu estava sendo invasiva. Então de forma bem
delicada disse a ele:
- O voluntário foi buscar o que o senhor
precisa para arrumar seu sapato, ele não vai demorar- Então prossegui com o
diálogo – Desculpe-me, mas como o senhor se chama?
- Meu nome é Joseph, e você? – Disse ele.
Me apresentei a Joseph, e contei que
era do Brasil. Ele ficou bem animado e enquanto ríamos sobre algumas histórias
que contei sobre meu país, decidi seguir com a conversa, então perguntei de qual país ele era, Joseph me
falou que ele era do Paquistão e trabalhava como segurança em uma empresa.
Imediatamente ele pegou o celular e me mostrou as fotos do local onde ele
trabalhava e como era o fardamento, vi que ele estava bem feliz em mostrar-me
aquelas fotos, enquanto ele passava cada foto ele compartilhou comigo que era
cristão, e devido a sua fé ele passou a ser perseguido no local onde
trabalhava, estava recebendo várias ameaças e já não era mais seguro permanecer
no Paquistão. Ele decidiu fugir, pagou
alguns contrabandistas, e com a promessa de que na Grécia ele conseguiria refazer
a vida bem rápido, ele atravessou o mar mediterrâneo em um barco. Mas infelizmente
não foi isso que aconteceu, Joseph chegou no campo em Junho de 2016, ele se deparou
com vários problemas, ele já não tinha mais casa, agora seu lar é uma pequena
barraca com algumas peças de roupas e seu único sapato que ele conseguiu pegar
da sua antiga casa no Paquistão.
Joseph compartilhou comigo que seus
pais estavam se preparando para reencontrar com ele, seus pais estavam juntando
dinheiro para poder pagar ao contrabandista e assim estar novamente ao lado do
filho. Depois desse tempo de conversa eu disse a mim mesma que precisava orar
por Joseph, eu agora o conhecia, ele compartilhou sua história, e a única coisa
que poderia/posso fazer por ele é orar , apresentando-o a Deus em minhas
orações. A história de Joseph me impactou de uma forma que não sei mensurar,
seu testemunho de fé traz a minha mente uma palavra que diz “regozijai-vos na
esperança, sede pacientes na tribulação, na oração perseverantes” (Romanos
12:12).
Tive a oportunidade em “esbarrar” com
Joseph no campo algumas vezes e ele sempre comunicativo estava cercado por
outras pessoas. Lembro que certo dia eu estava dentro de uns containers da
instituição quando o avistei conversando com algumas pessoas, ele imediatamente
acenou para mim e com um sinal com as mãos me chamou. Fui até onde ele estava,
e para minha surpresa ele queria apresentar a amiga brasileira missionária.
Essa lembrança ainda mexe com minhas emoções. Conversei rapidamente com ele e
voltei para o meu serviço.
Dia
30 de novembro, era uma quarta-feira, meu último dia de serviço. Na noite
anterior o vento forte derrubou algumas barracas, muitas pessoas não
conseguiram dormir, estava muito frio e as pessoas seguravam as barracas para não
serem levadas com o vento. Lembro-me que na quarta-feira antes de sair da
pousada onde ficamos hospedados eu orei a Deus para que naquela manhã eu
encontrasse com o Joseph, eu precisava me despedir e orar por ele, a oração de todo
o meu trajeto até chegar ao campo era “Deus, por favor, deixa eu ter a oportunidade
em me despedir e orar pelo Joseph”. Assim que chegamos no campo recebemos as
informações sobre como seriam os trabalhos naquele dia, pois devido a
tempestade iríamos ter um dia longo para atender as pessoas que não conseguiram
dormir devido aos ventos da noite anterior. Meu primeiro trabalho daquela manhã
foi concertar a barraca de uma mulher africana (tia de um amigo que fiz lá no
campo, Chuiguem), ela mostrou onde ficava a barraca, então eu e Taynara (amiga
e também integrante da equipe de ETED) fomos ajuda-la, foi um trabalho bem
complicado, tínhamos que montar a barraca, e deixa-la firme no local. Enquanto
estávamos ali arrumando, fui surpreendida com a presença do Joseph.
- Hey, my friend, já está aqui no
campo? – Indagou Joseph
Fiquei extremamente feliz em vê-lo, e
aquilo era de fato a resposta da minha oração que fizera a Deus naquela manhã. Segurando
as lágrimas, sorri e disse a Joseph que aquele era meu último dia de trabalho
no campo. Sua feição mudou, ele agora estava pensativo, depois de alguns segundos
em silêncio ele falou:
- Posso te pedir uma coisa? –
Perguntou ele.
Eu disse que sim, acreditando que ele
iria pedir para eu concertar sua barraca. Para minha surpresa, o que ele pediu ,
as palavras ditas naquele momento ainda ecoa dentro do meu coração, e sempre
choro ao lembrar.
- Quando você voltar para o Brasil,
você pode orar por mim? – Perguntou Joseph com um sorriso bem contido e seus
olhos marejados.
De fato, eu não esperava que o pedido
dele fosse uma oração, e o que mais me marca é que ele pediu para quando eu
voltasse para o Brasil. Eu tive a oportunidade de compartilhar com ele algo que
só Deus sabia;
- Joseph, desde o dia que você compartilhou
comigo a sua história, eu oro a Deus todos os dias pela a sua vida! - Disse a ele sem conseguir conter o choro, eu
desabei em lágrimas.
- De verdade? Muito obrigado por orar
por mim. Por favor, antes de você ir embora eu quero me despedir. - disse ele.
Disse a ele que ficaria até o fim da
tarde, pois eu iria me despedir de uns amigos e também gostaria de dizer adeus
a ele antes de ir embora. Durante todo o dia de serviço eu continuei orando a
Deus “Senhor, por favor, que eu consiga encontrar com Joseph e orar por ele
antes de ir embora”. As horas se passaram e já havia chegado o tempo de deixar
o campo, meu coração tomou de grande tristeza, pois eu não tinha encontrado com
Joseph, então caminhei até o portão, estava deixando o local que foi meu lar
durante 30 dias. De repente, eu e meu líder avistamos Joseph entrando no campo,
uma alegria me tomou por completo. Joseph falou que estava no centro, mas que
bom que conseguiu nos encontrar para se despedir. Olhei para meu líder e pedi para
orarmos pelo Joseph. Por questões de segurança fomos para um local um pouco
afastado do campo, e em português clamei a Deus pela vida daquele homem que me
mostrou que não importa a dor, não importa a perseguição, quando encontramos a
Cristo, quando entendemos que Deus é nossa esperança passamos pelas tribulações
na convicção de que Deus não nos abandonou, assim como está escrito em Êxodo
33:14, a presença do Senhor irá conosco para qualquer lugar e Ele nos dará descanso.
Meu líder, que é chileno, orou em espanhol pelo Joseph.
Deus não poderia ter me dado a melhor
oportunidade para encerrar meu tempo no campo de refugiados, ele permitiu que minha
despedida fosse feita por meio de uma oração. Falar sobre Joseph, é contar o
milagre que está por trás de tudo isso. Eu não tenho mais contato com
Joseph, minha oração foi o meu “adeus”, mas isso não significa que eu deva parar
de orar por ele, Deus sabe onde ele
está, se ele conseguiu ou não asilo, se ele está reunido com a família ou não. Joseph
está presente em minhas orações, e após compartilhar quem ele é, espero que
Joseph possa estar presente nas suas orações!