Seu
olhar era tímido, suas mãos trêmulas, mas tão carentes de carinho, era de uma
inocência que transbordava o seu ser, e uma doçura em sua forma de agir deu um
sentido a mais sobre o que é AMAR. É assim que descrevo uma senhora afegã que
conheci no campo de refugiados na ilha de Lesvos- Grécia.
Era
dia 11 de novembro de 2016, para mim era uma noite comum, sem grandes
surpresas, até que eu avistei essa linda senhora, seus cabelos estavam cobertos
por um lenço muito bonito, ela veio até a mim com um sorriso bem contido, nessa
hora eu estava sentada em uma mesa com mais quatro afegãs, elas me ensinavam
algumas palavras em árabe, enquanto eu retribuía ensinando-as a falar pequenas
palavras em português. Até que essa senhora, a qual descrevi no inicio sentou
ao meu lado, de uma forma bem delicada ela mexia no meu cabelo e apenas sorria,
prestando atenção no que conversávamos naquela roda de amigas.
Iniciei
uma conversa com essa senhora, mas ela só falava farsi (idioma falado no Afeganistão), ainda bem que ao meu lado
tinha uma jovem afegã, a qual eu fiz amizade e que se dispôs em traduzir nossa
conversa do inglês para o Farsi. Essa senhora
compartilhou comigo sua história, ela contou que sua família conseguiu asilo em
outro país, ela atravessou o mar dentro de um bote superlotado, almejando estar
reunida com a família. Infelizmente ocorreram alguns problemas quanto à
documentação dela, então, ela está aguardando uma próxima entrevista para saber
se conseguirá asilo no país onde sua família está. Por enquanto, ela vive só no
campo, não há ninguém de sua família para lhe fazer companhia, apenas algumas
amigas preenchem o vazio que às vezes toma o seu coração, amigas essas que
foram conquistadas durante o tempo de convívio dentro do campo.
Conversamos
praticamente a noite toda, até que um certo momento ela me tomou nos braços,
ficou me olhando, e no fim me deu um abraço forte e demorado. Nesse momento eu
senti como se aquele abraço fosse além daquele simples gesto de afeto. Fiquei
pensando há quanto tempo ela espera abraçar as filhas, tomá-las no braço e
cobri-las de beijo, há quanto tempo ela espera poder tocar no rosto de suas
filhas, olha-las nos olhos e se confortar em estar ao lado delas. Eu senti tudo
isso, senti como filha o quão difícil é a espera em rever a própria mãe,
aguardando um amanhã incerto, esperando contra a esperança em vê-la novamente.
Eu senti como mãe (apesar de não ser mãe ainda) a dor da espera em reencontrar
as pessoas que são minha família, e ter que acostumar com vários rostos
diferentes, e tentar imaginar como minhas filhas estão.
Não
sei se reencontrarei essa senhora, não sei como terminará essa espera, não sei
como será o desfecho dessa história. Eu realmente espero que ela consiga
reencontrar com as pessoas que ela ama, que ela possa abraçar as filhas,
toma-las em seus braços e ter o prazer de apenas estar ao lado de quem se ama.
Eu fui tocada por essa história, e quando estou orando sempre sou levada a
apresenta-la em minha oração. Infelizmente não tive a chance de me despedir
dessa senhora no meu último dia em Lesvos, mas o seu rosto, seu gesto de amor
permanecem tão vivos em minha mente e coração.
Essa
é uma de muitas histórias que há no campo e que eu pude conhecer. História de
pessoas que estão esperando, que sonham encontrar um lugar de refúgio e que
almejam estar reunida com a família, para que assim eles possam recomeçar.
Essas pessoas são bem mais que refugiados, são pessoas que esperam ansiosamente
a manifestação dos filhos de Deus. Seja você a voz daqueles não possuem voz!
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