“Refugiados da bestialidade das guerras, dos
despotismos e da brutalidade de uma existência vazia e sem perspectivas têm
batido à porta de outras pessoas desde o inicio dos tempos modernos. Para quem
está por trás dessas portas, eles sempre foram – como o são agora – estranhos.
Estranhos tendem a causar ansiedade por serem “diferentes” – e, assim, assustadoramente
imprevisíveis ao contrário das pessoas com as quais interagimos todos os dias e
das quais acreditamos saber o que esperar.” (BAUMAN, 2016).
Em 2016 foi publicado um livro
chamado "Estranhos a nossa Porta", Bauman, autor desse livro e também
sociólogo traz uma reflexão sobre esse tema que constantemente aparece na mídia
e na roda de conversa entre amigos. Quer entender sobre essa crise? Dá uma lida
nessa obra! Sabemos que atualmente a crise de refugiados configura-se como a
maior crise humanitária da história, isso é preocupante, precisamos falar sobre
isso, precisamos fazer algo. Zygmunt Bauman, na minha visão, é a pessoa ideal
para discutir sobre essa crise, ele que foi forçado ao exílio ainda na
juventude, expressa nesse livro sobre como o entorpecimento social em relação
ao outro tem crescido, e a forma como a solidariedade tem enfraquecido. Nessa
perspectiva, podemos então afirmar que essa modernidade líquida, a qual
vivemos tem se caracterizado por um medo constante. No continente Europeu, esse
medo é evidenciado na chegada dos refugiados, o medo da violência, desemprego
só aumenta a rejeição contra os recém-chegados. Ao longo deste livro ele
analisará o impacto e também a gênese dessa crise, no decorrer da leitura
Bauman expõe o modo de desumanização que esses refugiados recebem ao chegar ao
país e durante a estadia no campo de refugiados. Ele pontua que um dos fatores
que aguçam o pânico moral dos nativos desses países que recebem essas pessoas
está relacionado a uma ameaça do bem-estar da sociedade. Para além de uma crise
migratória, a sociedade contemporânea vive uma crise humanitária e uma ausência
latente da solidariedade.
Hoje, dia 20 de junho, comemora-se o dia do Refugiado, é
uma data que nos faz relembrar que não se trata apenas de uma crise
humanitária, mas trata-se da história de milhares de pessoas em busca de
acolhimento e respeito.
A humanidade está em crise, e não existe outra saída para ela senão a solidariedade dos seres humanos (Zygmunt Bauman).
A humanidade está em crise, e não existe outra saída para ela senão a solidariedade dos seres humanos (Zygmunt Bauman).
Em 2015 o mundo acompanhou a notícia
do menino sírio encontrado morto numa praia turca. Aquela notícia reverberou
durante algumas semanas, as pessoas estavam chocadas, e a partir daí todos
passaram a conhecer a triste jornada de milhares de pessoas que arriscam a vida
em busca de segurança. Para mim, aquela notícia do pequeno Aylan encontrado sem
vida continua reverberando em meu coração, Desde 2015 tenho lido e me envolvido
de alguma forma em prol dessas pessoas. Então, como já compartilhei algumas
vezes aqui no blog, em novembro de 2016 pude trabalhar como voluntária em um
campo de refugiados localizado na ilha de Lesbos, Grécia. Trago aqui no Diário
de Campo de Uma Missionária (DCM) minha perspectiva sobre essa crise
humanitária, por uma ótica sociológica e cristã. Aqui no blog você pode ler
algumas histórias de refugiados que tive a oportunidade em conhecer. Hoje,
relato como eram divididos as atividades no campo, sobre o incêndio que
infelizmente eu minha equipe presenciamos, explico um pouco sobre a situação
das crianças que estão desacompanhadas no campo, como também a organização dos
complexos de famílias e distribuição de doações.
Essa minha foto foi tirada no local
conhecido como “cemitério dos coletes”, é um lixão que fica próximo a uma das
áreas que os refugiados chegam. O acesso ao local não é muito simples, ao
chegar ao cemitério dos coletes nos deparamos com montanhas e mais montanhas
desse acessório utilizado por essas pessoas durante a travessia. Muitas pessoas
conseguiram chegar em terra firme, infelizmente, para outros o trajeto da
viagem foi interrompido ainda em alto mar.Segundo dados divulgados pela ONU,
mais de 300 mil pessoas realizaram a travessia no Mar Mediterrâneo só em 2016,
a Grécia então se tornou a porta de entrada para essas pessoas, estima-se que
mais de 385.069 pessoas chegaram ao país.
“A maior parte das pessoas que chegam à Grécia
vem da Síria (48%) e do Afeganistão (25%), mas há também um grande fluxo de
pessoas do Iraque, Paquistão e Irã."
Todos os dias de
manhã (quando o horário de serviço da minha equipe era das 04h30min da tarde
até meia noite) eu aproveitava o período da manhã para meditar próxima a
pousada, lembro-me que certa vez encontrei essa placa próxima a uma praça que
costumava ir. Nela está registrada a tragédia que ocorreu em 2012, e uma forma
de eternizar histórias desconhecidas. Em 06 de março de 2013 outra tragédia
aconteceu na costa de Lesvos, e aqui nessa placa encontra-se o nome das
vítimas, entre elas crianças. “Agradecemos aos
pescadores de Lesvos e a todos os outros que colocam suas vidas em perigo para
salvar vidas humanas. Em 14 de dezembro de 2012 em Termi 27 pessoas afogadas
foram encontradas, todos eles eram refugiados principalmente do Afeganistão.” Ao fim da placa pode-se ler a seguinte frase: Bem-vindo à Europa juventude sem
fronteiras.
Campo
Moria e as representações simbólicas:
A ilha de Lesbos fica localizada no
nordeste do Mar Egeu, também é considerada uma das maiores ilhas do país.
Aproximadamente mais de 20 mil refugiados chegaram em Lesbos, tornando-se assim
a “porta de entrada” para muitas pessoas que estão fugindo de perseguição e
guerras. O campo Moria é um presídio desativado, até setembro de 2016 foi
registrado que cerca de 5,4 mil pessoas foram alocadas no campo, contudo, a
capacidade que Moria possui é para 3,500 pessoas. Devido a necessidade em
atender o crescente fluxo de refugiados que chegavam à ilha o local teve que
ser adaptado, a fim de abrigar pessoas das situações mais diversas. Devido o
aumento de pessoas chegando diariamente na ilha, o processo de asilo tornou-se
cada vez mais lento e dessa forma o campo passou a abrigar essas pessoas por um
período indeterminado.
Cheguei ao campo em novembro com uma equipe de brasileiros e dois
chilenos, era nítida a superlotação e as condições sub-humanas que aquelas
pessoas viviam. O campo era considerado uma “bomba relógio”, um espaço repleto
de conflito, estresse, medo e insegurança. O campo de refugiados é um
ambiente deficiente, composto por precariedade, isso é nítido na situação que o
campo Moria se encontrava, o chão não é asfaltado e muitas tendas encontravam -
se em espaços onde um grande lamaçal era formado quando chovia.
Esse acampamento passa a se tornar um
espaço, cujas lembranças são reproduzidas, é uma forma simbólica em transformar
o local que vivem, resgatando a identidade cultural que lhes era familiar. Cada
pessoa tenta modificar o local que agora vivem, seja na abertura de tabacarias
improvisadas, como uma barbearia, uma mesquita e uma cafeteria. Era perceptível
ver essas mudanças no campo Moria. Um dos meus primeiros contatos com essas
“lojas” dentro do campo foi na cafeteria “Madiccino” (um trocadilho com o nome
do palestino, Madi, dono do local que vende chá e cappuccino).
Numa perspectiva sociológica, pensar
sobre essas práticas de transformações dentro do campo Moria, é refletir sobre
uma autoidentidade, a qual é construída, tornando-se assim o reflexo do “eu”,
possibilitando o indivíduo uma reflexão sobre sua trajetória. Assim, a
identidade não se trata de um processo individual, mas na capacidade
comportamental pessoal do indivíduo em narrar sua própria história, de acordo com o sociólogo Anthony Giddens, a autobiografia (podemos citar essas transformações simbólicas já
mencionadas) consiste em uma ação reconstrutiva, possibilitando o narrador
(refugiado) refletir sobre a própria história.
Mãos a Obra:
Havia uma escala
nos trabalhos do campo, então, quando uma equipe estava saindo do seu turno,
outra chegava para preencher aquele horário. Nós trabalhávamos de segunda a
sábado, geralmente minha equipe folgava aos domingos. Havia semanas que nosso
horário de serviço era das 16h30min horas até meia noite. Semanalmente nosso
horário era alterado, afim de que todos pudessem trabalhar em todos os turnos.
Trabalhamos em parceria com a Euro Relief, a qual era responsável pelas
acomodações dos refugiados recém chegados, distribuição de doações (barracas e
roupas). Havia também os “porteiros”, eram os voluntários responsáveis em
proteger os complexos de famílias, como também distribuir a alimentação dessas
pessoas, outro setor do Euro Relief era a INFO, setor responsável em limpar,
montar barraca, consertar o que estava quebrado e etc. Entenda a divisão do
campo:
Complexo de famílias: Havia 03 complexos de famílias, são espaços
reservados para as famílias mais vulneráveis, nesses espaços moravam também
famílias africanas e mulheres em situação vulnerável. Eles não precisavam
enfrentar fila para pegar alimentação, quem ficava no portão, eram responsáveis
em controlar o fluxo, apenas as pessoas dos complexos poderiam entrar e sair,
elas possuíam crachás que as identificavam. Assim, no complexo de família
número 01 moravam sírios e iraquianos. No complexo de família 02 viviam somente
famílias afegãs. No complexo 03 estavam alojados pessoas da Síria, Iraque, Irã,
Eritreia e Congo. Dentro dos complexos havia salas, onde algumas famílias
compartilhavam do mesmo espaço, a divisão dentro dessas salas era feita com
cobertores. Devido à superlotação até mesmo nesses complexos, algumas famílias
dormiam em barracas, era comum ver mais de 06 pessoas dormindo em uma
tenda.
Setor de
Doação: Era o setor
responsável em organizar e distribuir as roupas que chegavam. Havia um mapa com
a identificação de cada parte do campo, diariamente uma ala era atendida. As
identificações de cada espaço era feito de acordo com as letras do alfabeto
(por exemplo, dia de segunda feira atendíamos a ala A e B), cada refugiado
sabia exatamente o dia que iríamos passar em suas barracas para distribuir
sabão em pó e barbeador, na oportunidade eles poderiam solicitar roupas, caso
eles precisassem, mas só poderíamos preencher os tíquetes de solicitação após confirmarmos
a necessidade. Dessa forma, tínhamos o controle da última data que a pessoa
recebeu roupa ou sapato, tudo era registrado no computador. Assim que terminava
a distribuição dos materiais voltávamos para o container do EuroRelief para
preparar as sacolas com as doações. Anotávamos nome, sexo da pessoa, idade e o
tamanho da roupa ou sapato. Separávamos as solicitações,pois as 02 horas da
tarde iniciava a terceira etapa desse setor, a distriubuiçao. Eram separados
duplas ou trios para as seguintes atividades: Pegar os tíquetes e as bolsas
para serem entregues, equipe para a troca de roupa, caso a peça não coubesse na
pessoa, havia também uma pessoa responsável em ficar registrando as entregas no
computador, e um voluntário para organizar a fila e acalmar os ânimos das
pessoas. Ao término da distribuição nós também organizávamos o containers das
roupas, haviam caixas identificando a ala feminina, masculina e infantil,
separando os tipos de peças de acordo com o tamanho. Não tinha como ficar
parado, nós almoçávamos ou jantavámos lá no campo, então o que os refugiados
comiam, nós também comíamos, o melhor dia era as quartas-feiras, pois era dia
de frango e sempre tinha o querido de todos (o pão sírio).
INFO ou HOUSE: Setor responsável em entregar barracas,
acomodar os recém-chegados, limpar, consertar alguma barraca que porventura
viesse a quebrar. Estávamos no período do inverno, então, era comum encontrar
algum de nós (voluntários) subindo e descendo a ladeira que tinha no campo com
martelo, pá, picareta. Instrumentos utilizados para improvisar um local para
pôr uma nova tenda. Nosso trabalho também contava com o apoio de alguns
refugiados que trabalham como tradutor. Então, era comum chamarmos algum
tradutor para nos auxiliar no idioma. Havia tradutor para a língua farsi
(Afeganistão), árabe, Francês e espanhol, e algumas situações raras também
tínhamos tradução para o português (havia muitos africanos que só falavam
português).
Área externa do
campo: O campo Moria é
composto por sua maioria de homens solteiros, São jovens e idosos de vários
países. Então, posso afirmar, que para além dos complexos, as tendas e
barracas dos solteiros preenchiam boa parte do campo. Haviam algumas famílias
que moravam em tendas fora dos complexos de família. Então, era comum encontrar
jovens dividindo barracas com amigos ou algum parente. A grande maioria dos
solteiros eram oriundos do Paquistão, muitos participavam das atividades de
vôlei desenvolvidas por um casal de brasileiros dentro do campo Moria. Alguns
“abriam lojas improvisadas”. Era comum ver tendas que vendiam chá ou
cappuccino, alguns improvisando uma barbearia, enquanto outros consertavam
aparelhos eletrônicos.
A dor da Perda:
Era 25 de novembro, uma quinta-feira, minha equipe estava no turno da noite. Nesse dia fiquei no setor da INFO, era quase meia noite, estava quase na hora de acabar nosso turno, já tínhamos distribuído chá para as pessoas, nós voluntários estávamos no container da instituição, no momento eu estava sentada conversando com um dos tradutores, até que certo momento ouvimos o barulho de uma explosão, imediatamente vi uma nuvem de fogo subindo. Eu saltei assustada, e sem entender o que estava acontecendo ouvi gritos, eu fiquei paralisada naquele momento, vi meu líder e um amigo da minha equipe correndo até o local da explosão. Ouvíamos gritos, vários refugiados começaram a correr até o local onde a barraca incendiada estava. Pediram para todos os voluntários e tradutores entrarem no container, eu não sabia o que fazer naquele momento, estávamos apreensivos. Lembro que meu líder chegou chorando muito, até que ele nos contou que duas pessoas haviam morrido, uma criança e uma senhora. Segundo as informações compartilhadas no campo, o gás que a mulher utilizava para cozinhar provocou o incêndio. Em uma única noite um homem perdeu as duas pessoas que mais amava. Eu não sei mensurar para vocês o que sinto ao lembrar dessa tragédia.
Saímos as pressas do campo, na mesma
semana tivemos um treinamento de evacuação, infelizmente naquela noite tivemos
que refazer os passos do treinamento, assim que saímos do campo carros de
bombeiros e ambulância estavam chegando no local. Era uma dor muito grande fora e dentro
do campo Moria. Todos nós fomos encaminhado a um local onde fica a casa dos voluntários da instituição, em seguida fomos para a pousada onde estávamos hospedados, recebi áudios e
mensagens de uma das brasileiras informando que vários refugiados haviam
deixado o campo, não era seguro ficar lá, tinham pessoas desmaiando, chorando
devido a tudo que estava acontecendo. Foi uma noite de desespero!
No dia seguinte tivemos atendimento
psicológico,pedimos para ir ao campo, pois sabíamos que milhares de refugiados
haviam dormido fora do campo, outras barracas foram incendiadas e sabíamos que
muitos não tinham onde dormir. Queríamos ir até o campo para ajudar aquelas
pessoas, queríamos dizer para elas por meio das nossas ações que naquele
momento difícil a dor deles era nossa, que o luto deles também era o nosso.
Assim que chegamos no campo, fomos informados quais eram os serviços que
iríamos desenvolver. Foi um dia longo de serviço, distribuímos novas barracas,
cobertores e algumas roupas para aqueles que perderam. Dois dias após a
tragédia, alguns amigos e familiares das vítimas se organizaram para a
realização de um cerimônia em memória deles. As instituições do campo ajudaram
na organização, disponibilizaram alimentos, cobertores e tendas para que a
cerimônia pudesse acontecer. Foi um domingo de silêncio, a dor era sentida em
cada canto, naquele momento as diferenças culturais e religiosas não existiam,
estávamos todos ali, refugiados, organizações, voluntários, cristãos,
muçulmanos, todos juntos chorando com os que choram.
02 horas de travessia (Turquia e Grécia)
02 horas de travessia (Turquia e Grécia)
No
meu penúltimo dia na ilha grega, minha equipe e eu decidimos ir à Turquia. A
travessia dura em torno de 01h30min a 02hmin horas de viagem. O barco onde estávamos
nem se compara aos botes e os pequenos barcos utilizados pelos contrabandistas
para fazer a travessia. Mas dentro do barco eu me coloquei no lugar de cada
refugiado que enfrentou o Mar Mediterrâneo com anseio em recomeçar. As ondas
eram fortes, a probabilidade de um bote virar com aquelas
ondas era de 100%, é uma travessia arriscada, eu conheci o campo onde os
refugiados ficam, fui ao local onde os coletes são abandonados e por fim
conheci todo trajeto feito por eles. Estar diante daquela situação me fez
perceber o quão pequena sou, e o quanto eles não medem esforços para encontrar
um lugar seguro para família. No campo Moria havia um espaço onde os menores ficavam
sozinhos, e apenas pessoas específicas
tinham acesso a essa área, pois dentro desse lugar moravam meninos que estavam
sem a família. O motivo? Bom, algumas famílias não possuem a quantia
solicitada pelo contrabandista, que inclusive não há um valor fixo, há sempre alterações no valor, para vocês terem uma ideia uma afegã pagou cerca de dois mil dólares por pessoa para realizar o trajeto, já ouvi de outros refugiados valores diferentes, alguns na maioria das vezes são maiores. Com isso, os pais são obrigados a escolher apenas um membro da família para
fazer a travessia, na esperança de que logo eles terão o dinheiro suficiente
para que todos possam estar juntos. Muitas crianças, ainda na adolescência
entram nos botes sem seus pais, é um risco que os responsáveis desses meninos
preferem escolher, é um risco que talvez garanta a segurança do filho. Uma
decisão nada fácil, um trajeto incerto, mas uma fé inabalável em acreditar que em
breve estarão todos reunidos novamente.
Jesus e os
Refugiados:
Passei muito tempo refletindo sobre a
relação da igreja com os refugiados, sobre a relação do Criador com essas
pessoas. Lembrei-me de um homem, oriundo do Oriente Médio, filho de refugiados,
nos mostrou como a relação dessas pessoas em busca de refúgio não é tão
distante da nossa. Eu nunca parei para pensar de forma minuciosa






